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Como pretendo educar Ian

Antes mesmo de Ian nascer eu já vinha pensando na melhor maneira de educá-lo. Sem dúvida alguma meus pais são minha grande inspiração e o modelo que quero seguir. Por outro lado, quero fazer certas coisas de um jeito diferente e acho que a educação que pretendo dar não segue os padrões do que a sociedade acha ideal. Ainda bem.  =)

Ultimamente venho pesquisando bastante sobre educação infantil e, coincidentemente, encontrei um post do Leonardo Boiko. O post é ótimo e 90% dele é exatamente como eu pretendo educar meu filho. Fique muito surpreso em encontrar alguém que queira dar uma educação tão parecida quanto a minha e, sinceramente, as palavras dele poderiam ter saído dos meus dedos.

A seguir eu vou colocar tudo que eu concordo com o post dele (entre aspas) e adicionar/retirar algumas partes:

"Nietzsche dizia que, quando pensamos na evolução da humanidade, temos que pensar antes de mais nada para onde queremos que ela evolua. Alas, muitos de nós temos esperanças diferentes para a espécie. Há quem sonhe com um paraíso rural de paz e tranqüilidade, sem dificuldades e sofrimentos. Este objetivo é precisamente o oposto do meu. Eu quero seres humanos grandes; quero gente ambiciosa, com vontade de entender a natureza, explorar o universo e criar grandes obras.

Assim como na questão da evolução da humanidade, na pedagogia também precisamos, antes de qualquer coisa, perguntar: educar as crianças para quê? Alas, muitos de nós temos esperanças diferentes para nossos filhos. Há quem sonhe com crianças obedientes e comportadas, que tragam paz e tranqüilidade para os pais e professores, e que cresçam para se tornar pessoas decentes, honestas, trabalhadores esforçados.

Este objetivo é precisamente o oposto do meu, e se meu filho crescer assim vou me considerar um fracasso como pai. Eu quero filhos fortes e ambiciosos, independentes e criativos, que me digam “não” e questionem os professores, que encontrem seu rumo na vida sem se deixar levar pela opinião dos outros. A educação deve ser subversiva e crítica.

Como eu quero filhos desobedientes e autônomos, e quase todo material dito “educativo” educa para obediência e passividade, esse material é prejudicial para meus objetivos — e o mais prejudicial de todos os ambientes é a Escola."

Pessoalmente nunca me dei bem com a escola e sempre acreditei que ela não ensinava nada. Eu sempre gaziava aula, contestava professores, estudava de última hora e, mesmo assim, tirava nota mais alta que 95% da minha turma. As leituras que fazia em casa (e que nada tinham a ver com a escola) me ensinavam muito mais. Apesar disso eu quero, sim, que Ian frequente uma pois acho a ela é importante para a socialização (aqui é um dos pontos que discordo do Leonardo), e não para o conhecimento.


"Ao contrário do que dizem, a Escola não é uma instituição de ensino. A Escola é uma creche; daí as faltas e as grades, antitéticas ao aprender. Se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela teria turmas muito menores; é impossível ensinar adeqüadamente cinqüenta pessoas ao mesmo tempo.

E se a Escola fosse uma instituição de ensino, ela ensinaria assuntos interessantes.(Note-se como os cursos realmente enriquecedores em universidades decentes tipicamente ignoram as faltas, têm turmas pequenas, e são fascinantes.)

As únicas coisas importantes que se ensinam na Escola são ler e escrever (com isso não quero dizer “gramática”) e matemática básica; ainda assim, ensina-se ordens de magnitude mais lentamente do que um orientador de verdade poderia ensinar. Todo o resto é substituído com vantagens pelo estudo independente, autodidata, de bons livros (jamais “livros didáticos”!) e por atividades fisicamente estimulantes (ensinar biologia no bioma, química no laboratório, história em RPG).

A educação em casa não é apenas muito superior à Escola: a educação na Escola nem mesmo conta como educação, é simplesmente encheção de lingüiça.

Compare-se a maneira que Sócrates ensinava com a maneira que a Escola (des)ensina.Educar em casa é o ideal, mas é muito caro e infelizmente eu não tenho recursos para arcar com isso (pelo menos por enquanto). Vou ser obrigado a buscar uma Escola menos ruim, embora saiba de antemão que é uma busca quixotesca: na nossa sociedade, como Nietzsche previra, a educação se tornou utilitária, empreguista, e é considerada uma “boa” Escola aquela que treina e molda para o modelo vestibular-diploma-casa-carro.

Até onde eu sei, não existe nenhuma Escola fundada no pensamento crítico — as Escolas ensinam as crianças que o conhecimento é um jogo no qual estar certo conta pontos e estar errado não, bem ao contrário do que o aprender realmente é (i.e. saber duvidar e mudar de opinião).Uma criança que não quer fazer o dever de casa é uma criança inteligente. Uma criança que quer faltar aulas é uma criança inteligente. Uma criança que faz tudo o que mandam é uma criança mal-educada."

Depois do meu pai, "a maior inspiração para meu ideal de pai é o deus cristão. O deus cristão, além de criador, é chamado de pai da humanidade, e por isso os cristãos se chamam irmãos.

Como pai, o deus cristão é possessivo, invejoso, ciumento e arbitrariamente autoritário. Ele ordena que os filhos façam coisas absurdas como matar o próprio filho, e os recompensa por seguirem suas ordens sem questionar; assim, o deus cristão ensina que a responsabilidade moral não cabe ao indivíduo, e existe apenas por imposição dos superiores.

O deus cristão espera que os filhos vivam eternamente como seus subordinados, e taxou aquele que ousou querer ser tão grande quanto o pai — Lúcifer — de vilão e traidor. O deus cristão testa a obediência de seus filhos de maneiras realmente sádicas, como colocar uma árvore no centro do paraíso apenas para mandar aos filhos que não comam dela.Um bom pai é exatamente o oposto do pai cristão.

Seu objetivo último é que os filhos saiam do ninho, que pensem por conta própria, que não precisem mais dele; um bom pai trabalha para ser inútil. Quanto mais cedo os pais se tornarem inúteis, melhor desempenharam seu papel.

O espadachim Musashi dizia: quando você mexer o pé, mexa o pé para cortar o inimigo; quando você erguer a mão, erga a mão para cortar o inimigo. Da mesma forma, tudo o que eu fizer com meu filho manterá em vista o objetivo de me tornar inútil."

Sobre religião eu concordo com Dawkins, que ensinar religião às crianças constitui abuso infantil. Porém, não dá para simplesmente ensinar as crianças a serem ateístas. Crianças acreditam nos pais porque nos vêem como oniscientes; se ensinarmos para uma criança que deus não existe, ela vai acreditar que deus não existe, ao invés de concluir isso.

É impossível isolar as crianças do pensamento religioso porque, como Freud e Dawkins discutiram exaustivamente, o pensamento infantil é o pensamento religioso. O mundo da criança é governado por seres onipotentes, oniscientes, onipresentes, que dão ordens inescrutáveis e podem trazer tanto recompensas e tesouros quanto punição e sofrimento. Quando sua tia católica explicar o conceito de “pai do céu”, ele fará todo o sentido para uma criança. A idade de se tornar um ateu verdadeiro é a idade em que o filho compreende que o pai não é oni–coisa nenhuma, que é tão falível quanto ele próprio.

O que um pai ateu pode fazer para se precaver? Ensinar história da religião, e religião comparada. Mais de 90% dos religiosos seguem a religião de seus pais e/ou de seu país; ensinar que existe muita gente que pensa diferente é a melhor forma de combater esse bias ambiental. Quando meu filho perguntar a respeito, eu vou explicar que existem pessoas que acreditam em um deus pai, ou em uma deusa mãe, ou em vários deuses e deusas, ou em espíritos, magia etc., ou que não têm certeza de nada; vou pegar um globo e mostrar o território aproximado das principais religiões; vou explicar que muitas dessas pessoas dizem que você vai ser castigado se não acreditar no deus delas, e algumas até decidem nos castigar elas mesmas; e vou contar que muitas pessoas não acreditam em nenhum tipo de deus, e eu sou uma delas.

O importante do ateísmo não é o ateísmo, é o ceticismo; o ateísmo é só a conclusão lógica de se ter pensamento crítico. Por definição, é impossível forçar os outros a pensar criticamente, e portanto o ceticismo não tem convertidos. Mas ele tem inspiradores; eu me lembro de como me senti quando li Sagan pela primeira vez. Não posso forçar minha filha a pescar, mas posso levá-la para o pesque-pague, deixar vara e isca disponíveis, e pescar na sua frente para ela ver como é.

"A vida amorosa do meu filho diz respeito a ele e ele vai namorar, beijar e transar com quem ele bem entender. Ele vai ser educado sobre sexo seguro assim que perguntar a respeito, e tenho certeza que sua formação crítica lhe dará capacidade mental mais que suficiente para decidir por si mesmo como e quando se envolver com outras pessoas."

"Pais são pessoas, e pessoas são imperfeitas. Exercer poder é prazeroso, e eu tenho certeza que, apesar de meus esforços, haverá dias em que vou descarregar minha frustração e raiva em Ian.Quando isso acontecer, vou me esforçar para pedir desculpas e admitir que estava errado assim que esfriar a cabeça. Mais importante, vou conversar sobre por quê minha atitude foi injusta. Como quando a figura do Rei deixou de ser divina, isso a incentivará a julgar as atitudes dos pais através da razão".

A única educação é educação por exemplo. Se eu quero que meu filho tenha uma vida independente, preciso em primeiro lugar ter uma vida independente; se quero que ele pense nele mesmo, preciso pensar em mim mesmo. Se deixar de viver para garantir conforto material para ele, estarei ensinando que não há problema em vender sua alma por conforto material.

Eu vou incentivar Ian em várias áreas. É certo que eu tenho uma queda enorme por música e, assim que der, irei matriculá-lo em um curso de música. Mas esta não é a única arte que eu pretendo apresentar a ele. Quero mostrar todas possíveis e deixá-lo escolher a que preferir. O incentivo, pelo menos, eu vou dar.

"Crianças não são como obras; elas não nos pertencem, não são feitas por nós, não espelham nossos desejos de como gostaríamos que fossem. Quem quer criar crianças como obras deve ir jogar The Sims, não ter filhos.

Crianças são como plantas.Como jardineiros, podemos regá-las e protegê-las, podemos limpar o caminho para que cresçam para o lado de sua inclinação natural, mas não temos o direito de exigir que rosas sejam margaridas.

O modelo tradicional de educação é como aquele tipo de jardinagem que poda os arbustos, transformando-os em formas geométricas contidas. Acho isso de uma crueldade injustificável, seja com plantas ou com crianças."



12 Responses to “Como pretendo educar Ian”

  1. Dirceu Follmann disse:

    muito bom teu texto. Me fez – e fará ainda – refletir muito.

    • Carine Lopes disse:

      Olá!
      Comprei para minha filha um Kit – livro e DVD muito legal…
      chama Guardiões da Biosfera.
      É super explicativo… ensina de uma forma simples e lúdica sobre a fauna e a flora, e o mais importante… a preservação de natureza…
      Vale a pena… minha filha adora, principalmente o filminho que vem junto.
      Eu recomendo!!!
      http://guardioesdabiosfera.com.br/

  2. Daniel Ruoso disse:

    Sendo um geek que também se aventura na área das ciencias humanas, queria compartilhar uma leitura imprescindível: Rubem Alves, “A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”. Na verdade qualquer livro dele vai, em geral, ser bastante inspirador.

    Como certa vez um membro de uma comunidade indígena disse em um debate sobre educação:

    – “Dizem que a educação é para formar a gente. Eu sou assim, sem forma mesmo”

    A educação deveria ser uma experiência expansiva e não restritiva.

  3. Ju disse:

    Meu sobrinho titikinhu de gente tá tão lindo..gorduchinhu hahaha.
    Apoio completamente você…ainda bem que Ianzinhu tem um pai com a mente tão aberta, disposto a receber críticas sem deixar de dar uma boa educação.
    Boto fé nesse muleque!
    ;)

  4. Leandro Inácio disse:

    Sem comentários, sempre pensei dessa forma e principalemente após a morte do meu pai…

    Tenho certeza que pessoas que pensam dessa forma (como no texto), são as pessoas que estão mais próximas de “mudar o mundo”, do que as propagandas que passam na TV.

    Como conheço o Hugo pessoalmente, ele vai ser um bom pai.

  5. Cesar disse:

    Muito bom Hugo, principalmente sobre a questão da religião. Dizer que todos “deveriam” seguir a mesma idéia é bastante utópico, mas é o mais sensato.

    Abraços!

  6. Luís Gabriel disse:

    Hugo, belo texto. Assim como muitos que já leram e que vão ler, concordo em muitos pontos com você. Educação é algo fascinante, e imagino como deve estar sendo sua experiência como pai.
    Desejo tudo de bom pra você e seu filhão nessa longa caminhada.

    Abraço!

  7. Esse Hugo é um paizão!

  8. Wagner Lemos disse:

    “Por definição, é impossível forçar os outros a pensar criticamente, e portanto o ceticismo não tem convertidos. Mas ele tem inspiradores…”

    Não me leve a mal, vou lhe criticar, e como você gosta de críticas… acho que você foi convertido para o ateismo sim. Esse pedaço de seu texto é contraditório. Ou os livros ateístas que lê foram obra do acaso?

  9. Manoel disse:

    Pow Hugo[ ...] não é de mim surpreender isso vindo de vc, pelo fato de agente já ter debatido isso muitas vezes(TÂNIA q o diga) mas sua maneira de educar é bastante criativa e antagônica a essa hipocrisia social,desejo q Ian faça parte de uma nova sociedade, uma sociedade racional.

  10. Rui disse:

    Bom texto!Você passou uma visão muito clara e forte de como deseja educar o seu filho, isso foi brilhante, pois nos dias atuais boa parte dos futuros pais não sabem por onde começar por desinteresse ou por não ter instruções adequeadas para tal. Mas você foi contraditório em alguns pontos no que tange à Escola, antes de criticar a Escola de modo geral, veja o PORQUE que boa parte das Escolas Brasileiras se tornaram o que são hoje. Não estou defendendo a Escola neste momento, o nosso país possui uma cultura muito enraizada e conservadora e o quadro educacional brasileiro realmente é precário, como você mesmo falou procurar uma escola menos ruim é complicado. A seguinte frase:”A educação em casa não é apenas muito superior à Escola: a educação na Escola nem mesmo conta como educação, é simplesmente encheção de lingüiça. ” Primeiro: A educação em casa DEVE SER SEMPRE superior a Escola isso é verdade, o ambiente que se prepara para o garoto o relacionamento dos pais com suas famílias, o relacionamento do casal são fundamentais, pois educação não se faz apenas com aulas, mas gestos e visualizações também. Segundo: A educação na Escola DEVERIA contar como educação, sim, mas infelizmente no Brasil predomina-se a educação mais conservadora, onde tudo que se ensina como se as coisas já estivessem prontas, quando o aprendizado do ser humando deve ser permanente, contínuo, para se ter uma idéia até para alfabetizar uma criança ainda são utilizados métodos “decoreba” desestimulando as crianças a despertarem o senso crítico. O construtivismo, acredito que você já deve ter lido sobre isso, é uma teoria, no qual se destacam Piaget, Vigotski entre outros,.uma teoria que não é nova e no entanto, isso é pouco aplicado no espaço escolar e chegou até a ser distorcido por alguns teóricos da Pedagogia. Segundo Fernando Becker,”Construtivismo significa isto: a idéia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que,especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do Indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento.”
    Mas só de ver que você tem senso crítico apurado, tenho certeza de que você será um ótimo pai, sem dúvida.
    Falou!

  11. Hugo Doria disse:

    @Rui

    Concordo com boa parte do seu comentário. Acho, sim, que a escola deveria contar como educação mas infelizmente isto não vem acontecendo. Principalmente nas escolas públicas.

    Eu, sinceramente, acho que a situação das escolas públicas só vai piorar. O ideal seria se todos os filhos de políticos fossem obrigados a freqüentar as escolas públicas. Queria ver se desse jeito a coisa não melhoraria …

    @Manuel

    Desejamos que Ian faça parte de uma nova sociedade. Esta é minha intenção. Você como tio vai acabar ajudando muito. ahaha. :P

    @Wagner

    Sim, gosto de críticas, mas nesse caso eu não acho que tenha sido contraditório. Leio sobre ateísmo porque é algo que me interessa. Também leio sobre algumas religiões, mas nenhuma me pareceu convincente ou racional o bastante. Pode ser que minha idéia mude? Pode sim, mas pelo andar da carruagem acho que isto não vai acontecer …

    @Daniel

    Gostei muito da sua dica. Já estou atrás do meu exemplar do livro agora mesmo. Você tem mais alguma sugestão?

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